Portal da Cidade Mariana

Crônica

Céu despido de estrelas

Confira a crônica de Andreia Donadon Leal - Mestre em Literatura pela UFV e Membro efetivo do Pen Clube do Brasil.

Postado em 09/08/2020 às 16:35 |

(Foto: Pixabay)

Céu despido de estrelas nesta noite fria, seca, pálida. Cobre-me a pele, cobertores e meias de lã. Neblina esvoaçante toma conta da montanha recortada. Meu olhar embaçado pela neblina não consegue compreender o que é perder cem mil vidas. Cem mil vidas quitadas por uma única causa? Barulho ensurdecedor de gritos e lamentos, ouço da caixa de som da TV quebrada. Estrelas apagadas recontam-se diariamente. Na soma dos que já foram, quantos mais se curvarão à pandemia?

Todo dia junto-me às lágrimas dos que choram e dos que não choram mais. Pularam do décimo andar pela orfandade. Um par de olhos apagados pelo mal extraordinário. Pernas caminham por ruas e vielas estreitas, ressuscitando normalidade que não existe mais. Aglomerada festa com cantoria, gritos, batidas musicais de caixas de som e bebedeira. Ruas cheias, pontos de ônibus lotados, passantes sem máscaras andam despreocupadamente... Que caos medonho! Isto não é uma gripe que se evapora! Nenhum dobre e lamento de sino embala nossos ouvidos. Cientistas, pais de santo e curandeiros atravessam noites em busca da fórmula. Agonizo elucubrações sobre infertilidades em períodos de lua cheia. Que raio obscuro camufla este céu luzidio? Agonizam meus sonhos: ir e vir, ir e vir. Céu tomado de treva; ipê amarelo resiste no jardim morto; máquinas virulentas açoitam chão da praça; triste fim da camélia. Idoso chora abandono, criança entediada libera birra; depressão engrossada por isolamento estendido.

Lisura na política é caminho permeado por dissimuladas subjetividades. Que sedução escatológica atrai poderes à corrupção e à parcialidade? O orvalho se evapora de quatro em quatro anos. Enervam-me os ânimos quando a fertilidade se esvai junto com a aurora. Meus olhos cambaleantes acariciam o vento gelado e cortante. Indefiro novas solicitações de amizade e socialização. Vivo tempos trevosos na consciência e no autocuidado com espada empunhada. Afundam-se no caos do inferno medonho tardes seduzidas por tertúlias presenciais. Movimento na rodovia: caminhões, ônibus e ambulâncias.

Dia se tinge de cinza escuro. Meus ouvidos andam cansados, mesmo assim, ponho-me a escutar uma tal de Nina, que revela amarguras do seu cotidiano. “Afundo-me nas trevas da depressão e do abandono. Consumo carboidratos, nicotina e antidepressivos em excesso...” Indico Clarice para Nina enfrentar a solidão do isolamento.

Rezo entre brumas e trevas: salve, rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! Choro por cem mil almas. Choro, com meus olhos cansados, de segunda a segunda, o silêncio cortante das vidas quitadas de crianças, jovens, adolescentes e idosos; a camélia que morreu, a ação virulenta das máquinas que açoitam o chão da praça, o vitimismo cego de Nina.

Choro e me afundo no céu despido de estrelas nesta noite fria e pálida, sem nenhum dobre e lamento de sino, para embalar meus sonhos molhados...


Receba as notícias através do grupo oficial do Portal da Cidade Mariana no seu WhatsApp. Não se preocupe, somente nosso número conseguirá fazer publicações, evitando assim conteúdos impróprios e inadequados. 📲

Participe: CLIQUE AQUI 👈

Faça parte também das nossas redes sociais: Facebook e Instagram.


Fonte:

Receba as notícias de Mariana no seu WhatsApp.
Clique aqui, é gratis!

Deixe seu comentário