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CRÔNICA

Expressões que definem a realidade brasileira

Confira a crônica de Andreia Donadon Leal, mestre em literatura pela UFV

Postado em 10/02/2020 às 11:44 |

Talvez. Quem sabe? Não posso prever. Pode ser que sim pela manhã; pode ser que talvez à tarde, ou pode ser que não à noite. Não sei o que será. Não sei o que seria se.... Não sei o que poderia ser se.... Queria opinar, mas não posso, não me atrevo. Difícil saber se sim, se não, se talvez, se cedo, se mais tarde, ou se nunca. Amanheci dúvida, dormi indefinição.


Nos primeiros raios da aurora, luzes poderão deixar de existir. Na metade da noite, a escuridão poderá sair de fininho, para dar lugar às cores boreais do amanhecer. Aí tudo bem, são coisas misteriosas da natureza, que nem a ciência consegue explicar. Quando o assunto é coisa de homem faminto pelo poder, a esquisitice muda de figura, tornando-se mistérios boçais. Provável notar que começamos a ganhar notoriedade nunca vista antes no mundo da política. Em termos de chacota, somos a bola da vez; conseguimos superar a todos.


Nossa palavra de ordem é pela ordem do talvez. Talvez, é mais certeiro do que sim. Paradoxalmente talvez o improvável prevaleça. Incertezas se tornam velozes, mais do que a velocidade de uma aeronave a jato. Em termos de ‘com certeza’, nem daqui a meio segundo. É brega, fora do modismo usar a expressão ‘com certeza’. Tenho certeza de nada. Lados se digladiam diariamente. É toma lá da cá, sem intervalo. É vale tudo incessante. É rasteira atrás de rasteira, sem tempo de o oponente se levantar do último estabacamento.


Nessa peleja sem fim com infinitos pretendentes, muitos desconhecem o verdadeiro significado de uma batalha decente. A ridicularização de atos democráticos é alvo certeiro. Vale balançar a estrutura. Vale desestabilizar, nem que seja por minutos ou horas. Vale ridicularizar nossa pátria para todos e por todos. Vale despir o manto da ordem e do progresso. Não vale ser soldado honrado, que não atira nas costas do oponente. Soldado honrado evita o uso de armas imorais.


‘Soldado honrado, que expressão em desuso, cronistas defensores da moral e dos costumes’! Na briga pelo poder, o soldado daqui atira no oponente desferindo voadoras sequenciais, em todas as partes do corpo, mesmo que ele já tenha sido exterminado. Prevejo inseguridades nas afirmações de hoje, mas amanhã é novo dia, diz o médium aproveitando-se da indefinição. Não sei, nada sei. Ainda é cedo para saber. Prematuro definir. De um segundo para o outro, tudo pode mudar. Nossos sonhos poderão cair por água abaixo.


Nossos sonhos serão inverdades flutuadoras. Nossos sonhos nem serão mais sonhos; ou sonhos nem poderão fazer parte da meta de vida. Não sei. Quem sabe? Penso que até Ele, o Salvador, o Cara que sabe de tudo e de todos, está cauteloso. Ontem Ele definiu uma coisa. Mas o homem, esse ser improvável e indefinido, mudou de lado, surpreendendo a todos, até o Grande lá de cima. Ninguém pode ter um segundo de sossego; um segundo sequer de sono tranquilo. Quem sabe? Não posso prever.


O tempo, o texto e as perguntas sempre retornam. Ciclicamente na mesma posição indefinida. Pode ser que sim pela manhã; pode ser que não à noite. Pode sair. Pode ficar. Nem sair nem ficar. Não sei o que será. Não sei o que seria. Não sei o que poderia ser. Não sei o que será de nós. Queria opinar, mas não posso, estou super temerosa pelo que vem. Queria falar, mas está perigoso. Daqui a pouco tudo muda, até minha impressão. Amanheci dúvida, dormi indefinição. Vale a pena começar tudo de novo? Talvez. Não sei. Quem sabe? Cansei!

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