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Crônica

Quem sabe possamos descobrir novas formas de afeto.

Andreia Donadon Leal - Mestre em Literatura pela UFV

Postado em 18/03/2020 às 20:53 |

Qual o seu propósito

Máscaras, cabeças baixas, distância segura. Mundo infectado. Olho ao redor, desconfio até de minha sombra. Um espirro, pânico, contágio desferido. Desequilíbrio globalizado. Nessa guerra não há esquerdista nem direitista. Chove mansamente. Pingos espargidos molham flores ressecadas. Vade retro, pandemia! Calor infernal. Tempo misto. Ora calor, ora frio. Volto a rezar. Perdoar é vibe da vida. Aprendi a relevar. Perdão é para extraordinários. Procuro algo extraordinário nas ruas vazias. Alguns acreditam que o fim do mundo bate à porta. O homem soltou o vírus. Salve -se quem puder. Mundo cheio. Descalabro. Não há vagas para idosos nos estacionamentos, porque é melhor que não saiam de casa. Vírus potente. Renovação, a cúpula decidiu. Somos sobra a ser desbastada. A praga da cultura humana de pôr em tudo início e fim? Genitora pressente praga. Ninguém vai judiar de nós. Não mais conheço ninguém, nem os dedos da mão direita. Mão a fogo, nem a pau. Mosquitos procuram abrigo no ninho claro. Maldito barulho de motor de caminhão! Raciocínio em ebulição. Caim e Abel não se entenderam. Deus escreve linhas retas. Quem não fez o dever de casa, trilhou linhas tortas. Barulho de porta batendo. Poltrona nova range. Dói no bolso, o preço do álcool em gel. Procura alta, preço nas alturas. Comércio: olho vivo. Saúde sucateada. Bozo, sem noção do perigo, foi à multidão. Deus e o mundo viram. Quebra de privacidade lá em casa. Saudade dos profissionais de tempos idos. A maestra da deglutição cativou minha admiração. Não é de hoje que exijo de mim, nota acima do sarrafo. Vide Karnal e seus aconselhamentos sobre ser profissional de excelência. Dói no meu bolso pagar impostos. Dói no governo gastar dinheiro com drogas caras para pobres. Gastar o dinheiro suado do povo não dói no luxo de políticos. Nunca vi tanto lixo nas ruas. Entulhos e mato alto na entrada da cidade. Viver fora da rotina é terapêutico. TO (Terapia Ocupacional) é se ocupar de afazeres criativos e domésticos. Voltar para ilha, tornando-se ilha. Ruído de martelo. Noite alta. Alguém esqueceu da lei do silêncio. Bobagem minha! Quem não sai de fora da curva? Lavo as mãos e os braços de minutos em minutos. Uso máscara quando estou cuidando de minha mãe. Máscaras são para cuidadores, médicos e enfermeiras nas tarefas de cuidar de doentes, pois evitam que esses profissionais contaminem os doentes e se contaminem deles. Elas não têm eficácia como indumentária para andar pelas ruas. Sigo as recomendações e me aventuro a deambulação só em casos extremos. Quando necessário, vou e volto em questão de minutos. Álcool e máscara sumiram das prateleiras. Que isso! De vera? Sabão e detergente! Não dá para ter minuto de sossego. Vigília em casa. Cousa mais bonita é conversar com a família, virar a tarde numa tertúlia, na biblioteca, na sala renovada. Quem sabe possamos descobrir novas formas de afeto.

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