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Crônica

Vou deixar tudo para o beija-flor!

Confira a crônica de Andreia Donadon Leal - Mestre em Literatura pela UFV

Postado em 28/06/2020 às 16:00 |

(Foto: Pixabay)

Livros empoeirados no guarda-roupa. Vento entra pelas frestas das janelas e portas. Respiro o indecifrável. Dúvida perversa. Piso cascas de ovos. Não sei de mim nem do outro. Sei do ar, da falta de umidade no ambiente. O inconsciente dá pistas frias. Pretendia ler mais um capítulo do artigo, mas não me deram sossego. Loucura é arte manifesta, ciúme é mal do século. Sinto o peso da perda. Senti um vazio na casa, porque parte da engrenagem era preenchida com loucura. Aqui pesa vazio. Tento driblar a ira com emplastros de terapia. Amizade é pedra raríssima lapidada; não se curva às tratativas desamorosas. Compreendo a decepção do outro nas relações humanas. Escuto, analiso; a arte é infalível. Corto na minha carne para não ferir o outro. Pensei em desistir. Luto diariamente, insisto em não falhar. Fiz meu testamento: vou deixar tudo para o beija-flor. Riqueza é ostentar gratidão, esperança e bondade. Passei a rezar. Oração é poesia burilada para a alma. Choro menos porque é necessário. Equilíbrio entre o amor e a fidelidade é nascer todo dia. Fé remove pessimismo. Acreditar no outro é prova de fidelidade e crença. Fomos expulsos do paraíso há bom punhado de tempo. Caim não amava Abel. Ofereço o melhor que tenho para minha família. Vivo hoje, amanhã é apenas amanhã. Abraço e cheiro fazem uma falta danada. Quando o assunto é dividir em partes iguais, choramingos me aborrecem. Não há dinheiro que compre amor e presença. Faz frio, o inverno despiu o sol do calor escaldante. Passei a escutar os ecos das paredes. Conviver com o outro é desafio. Arte salva, amacia, solidifica relações. Ouço atentamente meu silêncio. Prefiro espinhos e galhos a flores e perfumes. Herdei a arte de coração vagabundo. Mordo, mas assopro. Mágoa não faz parte do meu diário de convivência. Gratidão não se paga, nem se compra. Pacto é diabólico, fidelidade é para o bem de todos. Insisto no melhor que posso dar. Desistir do outro é mais fácil. O pessimista morre afogado, o otimista segue remando. Sou amante das simplicidades complexas. Gosto de gente que ama bicho. Nunca desconfiei da fidelidade das lagartixas e formigas. Reconheço meus pinos soltos e me divirto com os novos parafusos. Além da montanha tem outra montanha. Prefiro a inocência da ignorância à maldade da genialidade. Jogar pedras é fácil, difícil é saber recolhê-las. Aprendi a escutar o outro lado da história. Convivo com a bipolaridade de quem chora e se alegra repentinamente. Dia frio. Recolho-me mais cedo. Cobras têm por todos os lados. A voz da sabedoria vem dos mais velhos. Saudade das tertúlias. Estou por um triz para deambular com o frio. Conversar com o outro é dar chance à amizade. Verdade é pedra britada na construção filosofal de relações frutíferas, mas depende da argamassa. Cumprimentei uma borboleta que ziguezagueava no meu quarto. Sinto o peso de mais uma perda. Compreendi a armação para ‘este povo’. Salutar reconhecer o mérito do inimigo. De ver tanto conflito armado passei a dialogar com o crepúsculo. A varanda de casa continua sendo portal da minha infância. Transpira vazio na casa. Parte da engrenagem era preenchida com risos que retumbam silenciados. Abel amava Caim. Deus ama Abel e Caim. Fomos expulsos do paraíso, provisoriamente. Prefiro a amizade das formigas e lagartixas. Vou deixar tudo para o beija-flor.


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