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MEIO AMBIENTE

Pesquisa identifica peixes com tumores e deformidades 11 anos após tragédia de Mariana

Estudo da UFES encontrou alterações físicas em peixes no Rio Doce, reacendendo o alerta sobre os impactos ambientais persistentes do desastre de 2015.

Publicado em 05/11/2026 às 10:37

Onze anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, os impactos ambientais continuam sendo identificados na bacia do Rio Doce. (Foto: G1)

Onze anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, os efeitos do desastre ambiental continuam sendo identificados no ecossistema da bacia do Rio Doce. Um levantamento conduzido pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) identificou peixes com deformidades, lesões e tumores, além de alterações no desenvolvimento de organismos aquáticos.

Os resultados fazem parte do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), coordenado pela Ufes, que acompanha as condições ambientais dos rios, estuários e ambientes marinhos atingidos pelos rejeitos de mineração.


Entre os casos analisados estão três peixes marinhos — duas corvinas e um linguado — capturados por pescadores e encaminhados para avaliação a pedido do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os exames, realizados pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), identificaram alterações externas nos animais, incluindo lesões na pele e uma massa nodular que se estendia da mandíbula até a cavidade oral de uma das corvinas.


Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi encontrado no linguado. O exemplar apresentou concentração de chumbo de 0,726 miligrama por quilo, índice superior ao limite máximo de 0,30 mg/kg estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

As duas corvinas examinadas, por outro lado, apresentaram concentrações de arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo dentro dos limites regulamentares. A universidade ressaltou que os resultados se restringem aos exemplares analisados e que não foram realizadas investigações capazes de determinar as causas das alterações ou das mortes dos animais.

Alterações também atingem o desenvolvimento dos peixes

O monitoramento da Ufes identificou outros sinais de comprometimento da biodiversidade aquática. Entre eles estão deformidades em larvas de peixes, principalmente nas regiões da cabeça e do trato digestório, além de uma proporção elevada de ovos inviáveis, sobretudo no ambiente marinho.

Os pesquisadores também observaram mudanças nos hábitos alimentares e na condição corporal de algumas espécies. Nos ambientes de água doce, foram registradas alterações na composição das comunidades de peixes, com redução de espécies nativas e aumento da presença de espécies introduzidas, especialmente na calha do Rio Doce e em reservatórios.

Pescadores que atuam nas áreas atingidas também relatam encontrar animais com características diferentes das observadas antes do rompimento da barragem. Entre os registros mencionados estão peixes com ferimentos e deformidades, tartarugas com úlceras e ostras cobertas por lama.

Melhora nos indicadores não significa recuperação ambiental completa

De acordo com a universidade, os indicadores de contaminação da água, dos sedimentos e dos organismos aquáticos apresentam redução gradual ao longo dos anos. Entretanto, essa melhora não significa que o ambiente esteja completamente livre de contaminantes ou das consequências do desastre.

A Ufes explica que períodos de chuvas intensas, aumento da vazão do Rio Doce, passagem de frentes frias e alterações nas condições oceanográficas podem provocar a ressuspensão de sedimentos, favorecendo a liberação de contaminantes novamente na água.

Nos últimos dois anos, a maior parte das amostras de peixes marinhos, camarões e caranguejos analisadas apresentou concentrações de metais dentro dos limites estabelecidos pela Anvisa. Entre os peixes de água doce, entretanto, foram identificadas amostras com concentração de chumbo acima do permitido em janeiro de 2025.

Segurança do pescado ainda exige atenção

Um dos pontos mais relevantes apresentados pela pesquisa diz respeito aos limites do próprio monitoramento. A Ufes esclarece que o PMBA tem como finalidade avaliar a qualidade ambiental e as condições da biodiversidade aquática, não contemplando diretamente a análise dos riscos à saúde humana decorrentes do consumo de pescado.

Além disso, a metodologia utilizada não é direcionada especificamente à captura de peixes de tamanho comercial ou destinados à alimentação humana.

Em avaliação própria, registrada na Nota Técnica nº 48/2026, a Anvisa identificou quatro amostras de peixes de água doce, das espécies acará e pacu, com concentração de cádmio acima do limite máximo tolerado. Os resultados foram obtidos em um ponto de monitoramento específico da bacia do Rio Doce.

Segundo a agência, essas amostras não devem ser destinadas ao consumo humano. A avaliação, contudo, não identificou, naquele conjunto de dados, preocupação sanitária geral relacionada ao consumo dos pescados analisados.

A universidade informou que pretende ampliar, no próximo ciclo de monitoramento, a inclusão de peixes de interesse comercial e em tamanho adequado para consumo, buscando aprofundar o conhecimento sobre as condições do pescado na região.

Retomada da pesca e continuidade do monitoramento

Os resultados ganham ainda mais relevância diante da retomada das regras para a pesca profissional em um trecho marítimo próximo à foz do Rio Doce, onde a atividade permaneceu proibida por mais de dez anos.

A decisão foi estabelecida por meio de portaria conjunta dos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente. A avaliação da segurança sanitária do pescado e a definição de orientações sobre seu consumo, entretanto, competem às autoridades responsáveis.

O desastre de Fundão, ocorrido em 5 de novembro de 2015, provocou o lançamento de aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração no meio ambiente, atingindo o Rio Doce e alcançando o litoral capixaba.

Mais de uma década depois, os resultados científicos demonstram que a recuperação dos ecossistemas permanece como um desafio. A redução de determinados indicadores de contaminação representa um avanço, mas as alterações identificadas na fauna aquática reforçam a necessidade de monitoramento contínuo, investigação científica e transparência nas informações sobre as condições ambientais e sanitárias das áreas atingidas.

Fonte: informações publicadas pelo g1, com base em dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática e da Anvisa.

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